Quando eu tinha uns 15 anos, lembro que eu me incomodava com uma propaganda da Clean and Clear, onde aparecia uma modelo jovenzinha com a pele perfeita, dizendo usar os tais produtos da marca para a pele. Como a maioria das adolescentes, foi bem nessa fase que meu rosto se encheu de espinhas. Nada dramático, mas como qualquer outra menina, tudo parecia pior e maior.

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Eu ficava com a imagem daquela menina com a pele perfeita na minha cabeça. Como poderia aquela menina ter aquele rosto de boneca, enquanto o meu ficava cheio de poros, marcas e bolinhas vermelhas? Que azar o meu! Ah… a maldita genética. Eu repetia e repetia pra mim mesma: muito azar.

Anos depois, fui trabalhar na televisão. O meu papel, primeiro como estagiária, era receber os convidados e celebridades que chegavam para o programa na TV. Primeiro, na TV Gazeta, depois, na TV Record. Mais pra frente, quando comecei a trabalhar em agências, também tive contato com diversas celebridades, por conta de gravações de comerciais e eventos.

Convivendo com apresentadores e famosos, notei que todo mundo que aparecia na TV era bem normal – exceto pelo kilo de maquiagem e muitos kilos a menos. Todo mundo chegava cansado, cheio de espinhas, com olheiras, até descabelado. A única coisa espantosa era que realmente todo mundo era bem mais magro e mais baixo do que na telinha.

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Os que pareciam mais “perfeitos” na TV, na vida real eram esqueléticos geralmente usavam lentes de contato colorida, super saltos, extensões no cabelo, faziam bronzeamento artificial e tinham próteses nos dentes (lente de contato).

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Uma vez, gravamos com uma famosa atriz global. Enquanto eu passava pelos computadores da agência, vi um dos meninos da criação “afinando” a cintura e os braços dela. Ah, que havia photoshop e tudo isso eu já sabia. Mas como era diferente ver o processo com seus próprios olhos.

Com o tempo fui entendendo que aquele conceito de perfeição que a mídia nos mostra não existia. Fui tendo ainda mais provas reais disso.

Este ano, me convidaram para gravar um comercial para uma marca de cosméticos. A ideia era mostrar processos de hidratação para o cabelo ruivo. Cheguei lá num domingo cedo, nada descansada. Sem maquiagem, sem pele perfeita, sem cabelo brilhante.

Após passar pela maquiagem, comecei a gravar. Quando o vídeo ficou pronto, fiquei impressionada: a minha pele parecia igual a da menina da propaganda da Clean and Clear, que eu tanto desejava há 13 anos atrás.

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Mas eu não era aquela pessoa! Aquilo era luz. E maquiagem.

Também tive a oportunidade de fazer um quadro na TV Record, no programa do Gugu, durante 3 meses. Eu ensinava para as pessoas como funcionavam aplicativos em tablets e celulares. Mas o ponto não é esse. Todo domingo, eu chegava na emissora por volta do meio dia. Cansada, sem pentear muito o cabelo, sem pele perfeita. Era só sentar na sala de produção para sair parecendo outra pessoa. Olhos bem pintados, pele perfeita (como um reboque!), cabelos muito bem penteados. Ao meu redor, todas as pessoas seguiam os mesmos procedimentos.

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Todo domingo eu me via no vídeo com a mesma satisfação de que sempre vi outras pessoas pela televisão. E pensava que todos esses anos eu sempre fui a mesma pessoa da tela, exceto, que fora da tela, eu vivia sem luz e sem a maquiagem que fazia por lá.

Passado tudo isso, volta na minha memória aquele sentimento que eu tinha quando via a propaganda da menina com a pele perfeita na TV.

Não, eu não me culpo pelo sentimento que eu tinha quando era mais nova. Afinal, quem não vai acreditar na TV, na revista, em tudo que a mídia nos impõe?

A verdade é que toda vez que eu entrava em contato com qualquer uma dessas mídias, eu me sentia feia. Mais feia. Mais amaldiçoada pela genética.

Fico aqui me perguntando quantas meninas ainda se sentem mal consigo mesma pelas propagandas com da pele perfeita, do corpo ideal, com os cabelos e dentes absurdos e a fábrica de pessoa ideal  dos famosos? 

Não vou ser hipócrita e não vou mentir: sou extremamente vaidosa, ainda mais que eu aprendi  “à risca como faz”. Mas, esse ideal de beleza fica impregnado de uma forma em nossa mentes que fica cada vez mais difícil fugir – ainda mais com essa enxurrada de tutoriais de maquiagem e faça você mesmo que povoam a internet.

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A diferença é que hoje em dia eu sei que ser bonito, como se dizem por aí, é mais uma questão de onde você investe seu dinheiro do que de beleza propriamente dita.

Sei que a menina da Clean and Clear não tem a pele perfeita, nem que o bronzeado, os dentes e o cabelo da cantora e a atriz famosa da televisão são naturais. Mas ainda assim, é cada vez mais difícil viver desprendido da ideia de que tá tudo bem ser você,  do jeito que tiver.

Sabe por que? Vejo muitos manifestos feministas caíram na minha timeline, muitos deles feitos pelas mesmas meninas que curtem e interagem os posts falando da celulite da ciclana, da maquiagem perfeita da fulana, do abdomen rasgado da beltrana. Em qualquer rodinha, seja de homem ou de mulher, referências à aparência física é a primeira a ser feita quando comentam de alguém. A primeira coisa que uma menina comenta para a outra sobre a namorada nova do ex é: se é feia, se tem a pele zuada, se é gorda.

O quanto nós malhamos e nos alimentamos de forma saudável, dando a desculpa que queremos cuidar da saúde, quando na verdade é porque estamos obcecados pela nossa forma física, ainda que como forma de proteção?

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Minha pergunta é: até que ponto nós somos vítimas ou agentes da nossa própria paranoia?

Essa pergunta eu ainda não sei responder. Pra ser sincera, apesar de toda essa vivência que eu tive, também não consegui sair totalmente desse loop. Ainda lavo o rosto 2 vezes ao dia, passo bastante cremes e faço peeling a laser pelo menos a cada 2 anos.

Pra que tudo isso? Também não sei. Se eu descobrir eu te conto. Mas uma coisa eu tenho certeza: nunca mais vou deixar de me sentir bonita porque eu não tenho a pele da pessoa do comercial. A cintura finíssima da atriz da TV. A cor dourada da modelo sentada na praia.

Esse tipo de beleza é fácil de conseguir: basta maquiagem e uma boa luz. Se você quiser tê-la de vez em quando, só pela diversão, tudo bem.

Mas saibam que aquela beleza que todo mundo deveria buscar, só pode vir de dentro. Sem hipocrisia. Não tem nenhuma boa base nem câmera que substitua luz própria.  Essa beleza só cresce, nunca se apaga e o principal: a gente vê dentro e fora de qualquer tela.

Érica Hans

 

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Erica Hans tem 30 anos e quer que todo mundo seja feliz. Além disso, é sócia/diretora da Social Media St..
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15/12/2014

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