Não sou dessas… (que eu achei que deveria ser.) | Linda Por Dentro por Erica Hans

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Eu passei muito tempo da minha vida achando que eu deveria cumprir com algumas missões.

Com o passar dos anos, a lista foi aumentando, a exigência extrapolando..mas isso não quer dizer que eu cumpri com a maioria delas.

Na minha lista eu tenho coisas como: acordar cedo, malhar todos os dias, comer a quantia perfeita de proteínas e (quem sabe) carboidratos, carregar um cabelo digno de comercial de TV, um corpo delineado,  uma carreira impecável, clientes me amando, um relacionamento dos sonhos (e extremamente estável), a lista de livros, opiniões políticas e notícias em dia e horas o suficiente dedicado à família, aos amigos e ao espírito.

Dia após dia eu me dedico a me culpar por ser fraca e falha ao não cumprir com todos esses itens.

Não acordou cedo? Falha. Não comeu direito? Falha. Não teve pique pra malhar? Falha. Foi pra academia mas não ficou pelo menos 1h30 de treino? Fraca. Se importou com o que lhe disseram? Fraca. Ficou triste porque fulano fez x com você? Fraca. Nasceu espinha? Falha. Cabelo seco? Ferrada. Se sentiu sozinha? Carente. Teve raiva de alguém? Pouco espiritualizada.

Tem mais: os meus projetos pessoais. Não postou no blog todos os dias? Falha. Não gravou video pro Youtube? Fraca. Só fala. Não fez fotos legais pro Instagram (porque isso ajuda a bombar o blog?) Desfocada. Gastou demais e não comprou os equipamentos devidos? Desorganizada.

E assim vai. Eu imagino que esse não seja um drama só meu, mas sim o de todo mundo.

Passo tanto tempo projetando quem eu deveria ser, me dedicando a me culpar…que mal abro espaço para me questionar: Será que eu realmente quero isso? Será que essa lista de itens ainda funciona pra mim?

Seria muito fácil passar a tarde gravando videos divertidos pro Youtube se eu fosse mais nova e estivesse o dia todo livre em casa, com nada para pensar a não ser o que alguém vai fazer pro almoço e torcendo pro fim de semana chegar. A mesma coisa pra academia: quando eu era mais nova, e até um tempo atrás, eu tinha muito mais pique e motivação para treinar.

Mas, preciso aceitar: tenho 29 anos, uma empresa e 100% responsabilidade da minha vida.

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Eu, corporativa e compenetrada.

Se amanhã, eu acordar, e não pensar nesses “tenho que ser tenho que fazer”, como seria?

Como seria comer o que eu tenho vontade? Como seria ir caminhar no parque porque sei lá, eu tô afim? Como seria escrever no blog, sem pensar e raciocinar meticulosamente cada linha e imagem perfeita que vai me trazer cada visita, e simplesmente cuspir o que está na minha cabeça (como estou FINALMENTE fazendo agora?).

Como será ligar a câmera e falar o que eu tenho vontade, sem pensar na luz, na qualidade, na maquiagem  e se a câmera não vai me fazer parecer gorda?

A verdade é que o tempo, a experiência e esse mundo de “metas” nos faz perder a espontaneidade, a inocência e virar um projeto de nós mesmos. Temos que ser bem sucedidos, profissionalmente e pessoalmente, e de quebra, magros (com um cabelo brilhante). Não podemos ter dias de merda e insônia porque na manhã seguinte tem aula de spinning às 6 da manhã. Reunião com cliente às 9. E almoço cheio de salada e proteínas ao meio dia.

Uma vez, uma terapeuta me disse que devia ser muito difícil viver na minha pele. Que nenhuma das pacientes dela, estava constantemente impecável, como eu sempre estava. Salto alto, make e unhas feitas, cabelo e roupas – tudo bonito. Ontem, enquanto conversava com uma amiga, ela disse que se sentia mal porque não conseguia ser “menininha” e usar rasteirinha e não fazer as unhas toda semana. Que ela diariamente se sentia mal e culpada por isso. Eu disse a ela que sofria da mesma coisa, só que ao contrário: não conseguia viver sem maquiagem e pelo menos 5 cm a mais nos pés.

Isso me faz pensar o quanto todo mundo tem suas cobranças e piras, cada um do seu jeito. O quanto viramos modelos de instagram e deixamos de sorrir sem perceber que podemos estar com alfaces nos dentes?

Hoje, exatamente hoje, durante um desses banhos em que você gasta muita água pensando na vida, me ocorreu “me dar um tempo”. Me observar para ver como é que eu me comporto sem esse monte de listas. Sem esse monte de “tenho que” e mais “estou afim”.

Eu li em algum texto do Osho que nada é pecado, e que a vida deve ser uma dança. Que nós humanos fomos feitos para atender os nossos impulsos e desejos, pois somos feitos deles, e não para sermos robotizados dentro de regras e deveres. Óbvio, que ninguém vai sair enchendo a cara e se drogando por aí, não é nada disso. Ele tá falando do básico mesmo. De respirar, de sentir, de querer, de ser gente.

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Não se iluda: essa sou eu fingindo que faço Yoga.

A partir de hoje, eu decidi que não sou uma dessas que eu achei que deveria ser.

Eu quero tentar ser eu. Mas antes eu preciso descobrir quem eu sou.

E quem sabe, atrás de tudo isso, tem no fundo a mesma pessoa que eu estava procurando ser?

Que espontaneamente vai ser quem queria. Que come alface porque quer. Que corre porque gosta. Que grava vídeos e posta no blog todo dia porque se sente livre pra dizer o que pensa.

Só um desabafo. E que delícia postar isso aqui, como eu nunca faria antes.

Érica Hans

escrito por
erica
Erica Hans tem 30 anos e quer que todo mundo seja feliz. Além disso, é sócia/diretora da Social Media St..
16/04/2015

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