Escrevi esse texto em 2005, mas ele se mostra tão atual.

A little very dirty Nepales boy walks up to me and stand close before me. Just looking and holding his hand up. In total silence...

O menino encostou na mesa do café.
Carros passando a 70km/h ou menos,
O sol saía tímido entre as nuvens e os prédios.
O garçom ofereceu o cardápio, empurrei a frente da mesa, não precisava olhar, aquele era meu local preferido para tomar um café enquanto papeava com amigos.

-“Um suco de melancia por favor.”

Ele disse “Sem açúcar né?”. Perguntei a minha amiga se eu tinha cara de quem não consumia açúcar (talvez por estar trajando roupas de ginástica) ou se foi porque suco de melancia não precisa adoçar mesmo.

-“Sem açúcar e com sementes por favor”.
-“Gelo?”
-“Gelo.”

Gelo.
O menino encostou com sua caixa de engraxate, segurando um maço de cigarros vazio que servia de cofrinho.
Pediu um gole do suco pois dizia estar com sede. Mal terminou a frase pediu dinheiro.
Eu tinha dois reais na carteira e meus cartões.
O instante em que eu poderia ter dado dois reais ao muleque foi o suficiente para eu pensar que dois reais deveria ter sido o que ele pagou no maço de cigarros.

Naquele instante em que que poderia ter aberto a carteira e doado, eu disse:
“E você, tá fumando?”
“Não, não senhora. É apenas aonde eu guardo o dinheiro”.

Foi o tempo do garçom chegar e afastar o menino, que largou aquela caixinha na mesa olhando para mim.

Cheguei em casa à noite e fiquei olhando o meu jantar:

um suco processado light, sabor pêssego, conforme minha mania de ler rótulos, descobri que aquela porcaria só era light porque na verdade era água com “aroma natural idêntico ao de pêssego” (assim dizia a embalagem), e alguma porcentagem de polpa. Aquilo não era suco nem nada.

E o menino estava com sede, e queria dois reais.
E se a caixinha dele não era realmente de cigarros? E se era, como ele me disse, apenas seu cofrinho?

Fiquei com vergonha de mim e culpada por comer meu suco de 32 calorias, quase suco, light, para não engordar, juntamente com meu pão integral de 9 grãos, nove grãos, porque eu tinha a oportunidade de comer comida demais pela frente, e o menino de engraxate, o menino que trabalha de engraxate, e aquele chocolate todo na minha frente, Mc Donald’s, vontade de pizza, rodízio, bebedeiras, baladas, roupas de marca, Ipod, trânsito, gritaria, frescuras, pai eu quero, cartão de crédito, faltando da aula, gastos a toa, vodka e cerveja, brincos de duzentos modelos e cores, e toda a minha futilidade e aquele volume de coisas que eu não preciso foram invadindo a minha mente enquanto eu mastigava a minha fatia com 9 grãos e 42,5 calorias.

Eu não tinha dois reais.
Eu tinha era tudo de sobra.
Hipocrisia de sobra.
Faltando da aula porque de sobra
Com mordomia de sobra.
Porque saí na noite passada de sobra.
Porque dormi de sobra.

Porque…

Eu não tinha dois reais.
E só tinha um coração.
Pequeno, aquele dia, pequeno.

Fiquei com sede.
Com mais sede que o menino.
Fiquei com sede de perceber as coisas que eu piso em cima.
Chamo de preguiça e no fundo é frescura,
Luxo,
Lixo,
Adoçante,
Integral.

Pensei que pago academia porque como demais.
Enquanto o menino carrega a caixa nas costas para ser engraxate.
Ele não tem gordura.

Ele tem sede.
E eu não tinha dois reais.

* Erica Hans

escrito por
erica
Erica Hans tem 30 anos e quer que todo mundo seja feliz. Além disso, é sócia/diretora da Social Media St..
26/10/2016

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