Leia ouvindo Competine d’un autre ete

Não importava com que velocidade os dias passassem, a cabeça dela continuava a girar na máxima.

Dentro do seu pensamento rodavam todo tipo de tema: de obrigações à previsão do tempo, do horóscopo aos meses que pagou na academia e nunca foi, aquele boleto, transtornos políticos do seu país, roupas holográficas.. e tudo mais.

Tudo pesava da mesma forma. Nada tinha mais ou menos importância, ela queria engolir o mundo todo, enquanto o mundo e sua ansiedade engoliam mesmo era ela.

Gostava de cachorros como quem gostava do ar, queria aprender costura, piano, canto e violão; queria cozinhar pâtisserie, queria ler todos os blogs e tirar as melhores fotos do mundo.

E naquele infinito mental de ocupações, calava-se, encostada no sofá, com o dedo no celular, apenas imaginando o que ia fazer. Passava horas rodando feeds e murais, imaginando-se em cada um deles. Ora estava num safári, ora em algum evento social. Pulava da piscina da foto de alguém pra algum resort de outro perfil, de um canto cheio de design de uma sala pastel – pra outro Instagram, onde tudo era amarelo.

Nada fazia. Perdia seu tempo vivendo o mundo alheio enquanto o seu voava pelos seus horizontes mentais, que nunca caminhara. Ela queria tanto, ela queria fazer tanto, mas não saia do seu sofá-mural-feed-aplicativo-lugar.

Um dia – ela pensava – quem sabe,

vai acabar o wifi do mundo

e ela vai se reconectar.

  • Erica Hans
escrito por
erica
Erica Hans tem 30 anos e quer que todo mundo seja feliz. Além disso, é sócia/diretora da Social Media St..
07/03/2017

Escrevi esse texto em 2005, mas ele se mostra tão atual.

A little very dirty Nepales boy walks up to me and stand close before me. Just looking and holding his hand up. In total silence...

O menino encostou na mesa do café.
Carros passando a 70km/h ou menos,
O sol saía tímido entre as nuvens e os prédios.
O garçom ofereceu o cardápio, empurrei a frente da mesa, não precisava olhar, aquele era meu local preferido para tomar um café enquanto papeava com amigos.

-“Um suco de melancia por favor.”

Ele disse “Sem açúcar né?”. Perguntei a minha amiga se eu tinha cara de quem não consumia açúcar (talvez por estar trajando roupas de ginástica) ou se foi porque suco de melancia não precisa adoçar mesmo.

-“Sem açúcar e com sementes por favor”.
-“Gelo?”
-“Gelo.”

Gelo.
O menino encostou com sua caixa de engraxate, segurando um maço de cigarros vazio que servia de cofrinho.
Pediu um gole do suco pois dizia estar com sede. Mal terminou a frase pediu dinheiro.
Eu tinha dois reais na carteira e meus cartões.
O instante em que eu poderia ter dado dois reais ao muleque foi o suficiente para eu pensar que dois reais deveria ter sido o que ele pagou no maço de cigarros.

Naquele instante em que que poderia ter aberto a carteira e doado, eu disse:
“E você, tá fumando?”
“Não, não senhora. É apenas aonde eu guardo o dinheiro”.

Foi o tempo do garçom chegar e afastar o menino, que largou aquela caixinha na mesa olhando para mim.

Cheguei em casa à noite e fiquei olhando o meu jantar:

um suco processado light, sabor pêssego, conforme minha mania de ler rótulos, descobri que aquela porcaria só era light porque na verdade era água com “aroma natural idêntico ao de pêssego” (assim dizia a embalagem), e alguma porcentagem de polpa. Aquilo não era suco nem nada.

E o menino estava com sede, e queria dois reais.
E se a caixinha dele não era realmente de cigarros? E se era, como ele me disse, apenas seu cofrinho?

Fiquei com vergonha de mim e culpada por comer meu suco de 32 calorias, quase suco, light, para não engordar, juntamente com meu pão integral de 9 grãos, nove grãos, porque eu tinha a oportunidade de comer comida demais pela frente, e o menino de engraxate, o menino que trabalha de engraxate, e aquele chocolate todo na minha frente, Mc Donald’s, vontade de pizza, rodízio, bebedeiras, baladas, roupas de marca, Ipod, trânsito, gritaria, frescuras, pai eu quero, cartão de crédito, faltando da aula, gastos a toa, vodka e cerveja, brincos de duzentos modelos e cores, e toda a minha futilidade e aquele volume de coisas que eu não preciso foram invadindo a minha mente enquanto eu mastigava a minha fatia com 9 grãos e 42,5 calorias.

Eu não tinha dois reais.
Eu tinha era tudo de sobra.
Hipocrisia de sobra.
Faltando da aula porque de sobra
Com mordomia de sobra.
Porque saí na noite passada de sobra.
Porque dormi de sobra.

Porque…

Eu não tinha dois reais.
E só tinha um coração.
Pequeno, aquele dia, pequeno.

Fiquei com sede.
Com mais sede que o menino.
Fiquei com sede de perceber as coisas que eu piso em cima.
Chamo de preguiça e no fundo é frescura,
Luxo,
Lixo,
Adoçante,
Integral.

Pensei que pago academia porque como demais.
Enquanto o menino carrega a caixa nas costas para ser engraxate.
Ele não tem gordura.

Ele tem sede.
E eu não tinha dois reais.

* Erica Hans

escrito por
erica
Erica Hans tem 30 anos e quer que todo mundo seja feliz. Além disso, é sócia/diretora da Social Media St..
26/10/2016

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Tá cada vez mais difícil viver nesse mundo, né?
Esses tempos tenho pensado muito sobre sentimentos e sinceridade.
Eu acho que amor não se pede, nem se cobra.
Isso pra todo tipo de amor.
Amigos, família, relacionamentos…

Acho que a gente não tem que dar discurso em ninguém.
Sabe aquela coisa de reclamar pra amiga “você sumiu?”?
Será que você pode dizer isso?

Você, que ao menos visita a sua avó?
Que está ocupado demais com o trabalho,
mas tem tempo de sobra pra ver
mais de uma temporada de mais de um seriado?

Será que a gente avisa quando fica triste com alguém?
Ou sai andando, de fininho, tão leve quanto
um silêncio bom?

Será que vale a pena dar indireta em rede social?
Aquela coisa de postar meme e uma “frasezinha” de efeito
Que é o nova forma que a humanidade achou
pra se expressar.

Eu olho o Facebook e vejo muita tristeza.
Todo mundo doido tentando ser ouvido,
mas ninguém ouve mesmo o que está cutucando lá dentro.

Todo mundo procurando uma
beleza no melhor filtro
no melhor ângulo
na melhor selfie.

O que será que é bonito?
Bonito é ser gente que tem tempo pra mais gente.
(Aí todo mundo pode fazer um selfie juntinho.)

Todo mundo procurando o link perfeito
pra dar a impressão perfeita
nas pessoas imperfeitas.

O que é ser perfeito?

Você tem amigos?
Eles são de verdade?

Eu ainda não sei.

escrito por
erica
Erica Hans tem 30 anos e quer que todo mundo seja feliz. Além disso, é sócia/diretora da Social Media St..
28/05/2015

ouvir melhor do que falar quem ouve

 

Eu sempre fui dessas que falava muito.

Falava da minha vida, falava o que ia fazer, falava o que achava, falava demais.

Com o tempo, fui percebendo que falar não é muito legal.

 

As pessoas mais espertas que eu conheço falam pouco.

Quando falam, não falam de si – sempre se resguardam.

Quem fala, se compromete.

Dar uma opinião sem ser necessário é arriscado.

Falar significa envolver-se na situação mesmo que ela não seja sua.

Falar dos outros então pode ser letal.

Tem quem ache que falar dos seus planos pode atrair energia ruim. A tal da “inveja”.

Falar demais da sua vida pode dar espaço a julgamento, por mais correto que você seja.

 

Já ouvir, ouvir é genial.

Ouvir significa receber e mastigar livremente em sua mente a matéria expelida pelos outros.

Ouvir significa ter posse. Posso da opinião. Posse da ideia. Posse do julgamento.

 

Falar é doação. É entrega.

 

Quem ouve, ganha tempo.

Pensa. Reflete. Resguarda.

 

Falar é pó.

Ouvir é ouro.

 

Diz o ditado que temos 2 ouvidos e só 1 boca pra ouvir mais.

Mas eu acho que no fundo é porque a gente devia ter é dois cérebros,

para pensar direito antes de falar.

escrito por
erica
Erica Hans tem 30 anos e quer que todo mundo seja feliz. Além disso, é sócia/diretora da Social Media St..
06/05/2015